segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Lei 10.639/2003

Contexto de Instauração da Lei nº 10.639/2003
A instauração da lei 10.639/2003 inicia-se com um importante momento de reflexão dos desafios a serem superados referentes ao racismo e à discriminação. A III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlatas, ocorrida na cidade de Durban, África do Sul, no ano de 2001, é o marco inicial para as políticas afirmativas no Brasil.
A Conferência admite erros e práticas discriminatórias, do passado e da atualidade, que diferenciam parcelas da população, marcadas pelas desigualdades sociais, pela exclusão, pelo extermínio de comunidades inteiras, e busca amenizar o sofrimento dessas inúmeras pessoas através de programas que visam ao desenvolvimento econômico e social dos grupos afetados.
No Brasil, as reivindicações do Movimento Negro, que se constitui em 1978, passam a ter um reconhecimento maior junto ao quadro da Conferência de Durban. Uma de suas exigências visa à formulação de projetos que busquem a valorização da história e cultura afro-brasileira e africana.
Neste mesmo contexto alguns dispositivos legais começam a entrar em vigor no Brasil em municípios como Belém, Aracajú e São Paulo, nos anos de 1994 e 1996. São leis que inserem nos currículos escolares questões étnico-raciais, como a formação sociocultural brasileira e discriminação.
Aliado a isso, tem-se a criação dos PCN’s – Parâmetros Curriculares Nacionais – que possibilitam a inclusão como sendo um dos temas Transversais a ser discutido. A proposta dos PCN’s é, segundo a LDB de 1961, "inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana" e tem por finalidade: compreender direitos e deveres dos cidadãos, Estado, família e demais grupos sociais; respeitar a dignidade e liberdade do homem; fortalecer a nação, assim como a solidariedade internacional; desenvolver integralmente o ser humano; preparar o homem e a sociedade para utilizar recursos científicos e tecnológicos; preservar e expandir o patrimônio cultural; e condenar tratamentos desiguais em virtude de questões filosóficas, políticas ou religiosas, assim como preconceitos de classe ou raça.
O Brasil, que estabelece em sua história uma política de desenvolvimento que excluía uma enorme parcela da população, começa a programar diversas medidas a fim de retificar as injustiças sociais, erradicar preconceitos e impulsionar a mobilidade social através da educação.

 
O Adendo à Lei – Lei nº 11.465/2008
A Lei 11.465/2008 altera a redação de sua antecessora, a Lei 10.639/2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional e inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade do estudo da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Buscando abranger os diversos grupos que formam a população brasileira, resgatar suas culturas, bem como apontar suas contribuições para a economia, sociedade e política.
O adendo inclui, portanto, a temática indígena em sala de aula, cinco anos após a promulgação da lei que adicionava ao currículo escolar a questão negra. Tem-se esta diferença de datas devido a tratativas políticas - maior coação do Movimento Negro em busca de igualdades sociais desde sua formação em 1978, e muito antes, inclusive, sob a forma de organizações sociais dispersas - que priorizaram a implantação da lei 10.639, onde somente consta a temática negra nos currículos escolares.
A Lei 11.465/08 contribuirá para a afirmação da identidade indígena, estigmatizada, desvalorizada como geradora de bens culturais. “Que se estude a arte indígena ao lado do estudo de um Di Cavalcanti, um Portinari.” “Que possamos aprender, com a literatura dos índios, uma visão de um mundo mais solidário, mais espiritualizado, menos consumista e capitalista, em maior comunhão com as energias da criação (ASSIS, Fernanda Mullin de.  Sobre os Indígenas, o Direito à Identidade e a Lei 11.465/2008. Maricá/RJ, 2010).”
Dentro da temática indígena deverá ser trabalhada a desconstrução de estereótipos que afirmam que:
·               indígenas são “todos iguais” - desconsiderando a diversidade cultural entre os vários povos;
·               povos indígenas são “coisas do passado” – não vêem o índio como parte de um Brasil contemporâneo;
·               indígenas estão “parados no tempo” - não percebem que estas sociedades não são estáticas;
·               eles não são a “infância da humanidade” – como se não tivessem evoluído;
·               povos indígenas são “atrasados” – nenhuma cultura é mais ou menos civilizada que outra, nem mais ou menos complexa, apenas diverge em suas manifestações.
Com o adendo a população brasileira terá o acesso à diversidade de culturas que formam a sociedade. Passará, o índio a ser visto além do 19 de abril, assim com o negro, além do 13 de maio, de forma menos eurocêntrica, desmistificando estereótipos.



Características Principais das Diretrizes
A Lei 10.639/2003 que estabelece Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana visa atender e regulamentar as alterações da Lei 9.394/1996. No ano de 2008, ela é novamente alterada, passando a incluir, no currículo oficial da rede de ensino, a obrigatoriedade da temática indígena.
Uma das metas do parecer é que os negros se reconheçam como parte importante da cultura nacional, podendo manifestar seus pensamentos com autonomia, assim como busca a inclusão de todos os cidadãos brasileiros, independente da cor da pele, em todos os níveis de ensino, com professores qualificados, com entendimentos e sensibilidades, para lidar com variadas situações provenientes de racismo entre grupos distintos.
As diretrizes não têm como meta modificar o foco etnocêntrico e sim, ampliar o currículo escolar, voltando-o para a diversidade cultural, racial, social e econômica, trazendo à luz os povos indígenas, os descendentes de asiáticos, nossas raízes africanas, assim como européias.
Cabe às instituições de ensino, coordenações pedagógicas e professores estabelecer conteúdos a serem trabalhados, materiais didáticos, a criação de projetos e programas que compreendam diferentes componentes curriculares. Compete à responsabilidade com a comunidade escolar, com o entorno sociocultural, com a formação de cidadãos democráticos.
São apontados, pelas diretrizes, três princípios que orientam as ações do sistema de ensino e professores. São elas:
·               consciência Política e Histórica da Diversidade – igualdade de direitos e deveres, valorização da formação social, dos povos africanos, da cultura afro-brasileira, a desconstrução do mito da democracia racial, construção de ações respeitosas, diálogos que busquem uma sociedade justa;
·               fortalecimento de Identidades e de Direitos – afirmação de identidades, rompimento com imagens negativas, identidade humana universal, privação e violação de direitos, ampliação de acesso a informações sobre diversidade, igualdade nas condições de formação e instrução;
·               ações Educativas de Combate ao Racismo e a Discriminações – estratégias de ensino que valorizem aprendizagens, crítica pelos educadores quanto aos materiais didáticos, assumir relações étnico-raciais positivas (professores e alunos), valorização da oralidade, corporeidade e arte (marcas da cultura africana), educação patrimonial, conferir participação de diferentes grupos na formação da sociedade brasileira, participação de grupos do Movimento Negro (e outros) na elaboração de projetos político-pedagógicos.
Estes princípios norteiam os procedimentos a serem adotados pelas escolas, apresentam as mudanças de mentalidade exigidas, tanto nas instituições quanto nos indivíduos.
O ensino da História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena devem ser desenvolvidas no cotidiano das escolas, buscando compreender e interpretar as diferentes formas de expressão e organização social. Deve promover diálogos que cultivem formas harmônicas e respeitosas de convivência. Deve abranger diferentes disciplinas e conteúdos, entre eles, principalmente, Educação Artística, Literatura e História do Brasil, em atividades curriculares ou não.
Dentro dos conteúdos de História devem ser trabalhadas as iniciativas e organizações negras, as datas significativas, a História do continente africano. A cultura deve abranger temas como as celebrações, as contribuições dos povos africanos para ciências e filosofia, as tecnologias de agricultura, mineração, produções artísticas (plásticas, música, dança).



Importância da Lei
O Brasil, por ser um país multiétnico e pluricultural tem a necessidade de que todos seus cidadãos estejam inseridos numa mesma realidade, onde o direito de aprender e ampliar seus conhecimentos não tenha por princípio o de negar suas origens, o grupo ao qual pertencem, nem de adotar ideias e costumes que lhes são antagônicos. Esses preceitos indicam a qualidade da educação oferecida pelas instituições.
A obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena em sala de aula contribui neste aspecto, com a finalidade de minimizar a discriminação entre diferentes grupos sociais, reeducando as relações étnico-raciais, reduzindo a ignorância que diferentes grupos étnico-raciais têm uns dos outros para então construir uma sociedade democrática.
Permite que crianças, jovens e adultos sintam-se respeitados em programas e projetos educacionais. Reduz a violência explícita e/ou metafórica, gerada por racismo e discriminações.
Reconhece a diversidade das culturas africanas e celebra a participação de antepassados negros, bem como indígenas, na formação social brasileira.
Abranda a exclusão das populações negras e indígenas das carteiras escolares, em todos os níveis de ensino, e também suaviza as humilhações sofridas por estes estudantes em consequências de atitudes, textos, inclusive materiais didáticos com conteúdos racistas.
A Lei tem o claro objetivo de divulgar e produzir conhecimentos acerca das diferenças culturais, criando um ambiente de posturas e valores de afirmação de identidades, na qual todos tem a capacidade de interagir com igualdade, participando e consolidando a democracia em nosso país.



Problemas e Cuidados da Lei:
A inclusão da temática busca ampliar as discussões acerca da diversidade cultural, racial, social e econômica brasileira, exigindo que sejam repensadas as relações étnico-raciais, sociais e pedagógicas, ou seja, é preciso desconstruir a história tradicional, baseada no “mito da democracia racial”, para então combater o racismo.
Acabar com desigualdades sociais, assim como com o preconceito, não são tarefas exclusivas da escola, sendo também necessária a desconstrução da mentalidade racista e discriminadora. É preciso reestruturar as relações étnico-raciais e sociais, já que nosso racismo é político, social, coletivo. Percebemos isso nos questionários que nos são impostos onde precisamos declarar nossa raça. Torna-se importante elucidar que, no Brasil, ser negro não se restringe à cor da pele e sim a uma escolha política, pois “o é quem assim se define” (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana – Brasília, DF. 2004. P 15).
As pedagogias de combate ao racismo necessitam de cautela, uma vez que todos os cidadãos, independente da identificação étnico-racial, devem receber formação indispensável para tecer novas relações sociais. Para isso faz-se necessária à qualificação dos educadores, fundamentais na formação de uma consciência política e histórica de diversidade, assim como a adequação dos materiais didáticos.
Temas como escravidão, resistência, abolição, inserção do negro na sociedade, devem ser trabalhados segundo uma visão critica, que considere todos os aspectos relativos a relações sociais, tempo e espaço.
Passa a fazer parte das pesquisas diversas abordagens sobre a organização de vida dos escravizados, buscando recolocar os negros como sujeitos de sua história. Também passa a ser relevante a diversidade cultural, assim como a interdisciplinaridade.
Dentro das problemáticas referentes ao material didático-pedagógico, podemos destacar o aspecto que diz respeito às origens dos negros, que normalmente é abordado a partir da colonização, não sendo explicado de que região da África ele vem, ficando tão vago que até mesmo o termo África, torna-se genérico, parecendo tratar-se de um país. É preciso trabalhar as raízes dos povos africanos e apresentar sua organização ainda no continente de origem. A fim de desmistificar o negro como sujeito passivo à escravidão, é preciso analisar os tipos de resistências por eles impostas. Ver o papel do negro na sociedade brasileira ao longo dos mais de 300 anos de escravismo, onde ele atua não só como mão de obra, que movimenta a economia, mas na política e sociedade. Estudar o papel do negro pós-abolição, as diferentes leituras dos autores acerca do tema e os reflexos da escravidão na sociedade atual, enfocando as lutas por igualdade social.
Também dentro das ações necessárias para a implementação da Lei, um esforço maior do poder público está no que se refere à formação dos educadores.
Outra questão que deve ser destacada é quanto à denominação étnico-racial. Para Bobbio (apud GOMES, 2005) “etnia é um grupo social cuja identidade se define pela comunidade de língua, cultura, tradições, monumentos históricos e territórios (p.50)”. Entretanto, não podemos afirmar que a população negra brasileira constitui-se de uma etnia, isso não leva em consideração a diversidade de idiomas, culturas e tradições das origens dessa população, tampouco dá importância à diversidade cultural atual da população negra no Brasil. Já o conceito de raça, tem significado biológico inadequado e inaceitável.
[...] raças são, na realidade, construções sociais, políticas e culturais produzidas nas relações sociais e de poder ao longo do processo histórico. Não significam, de forma alguma, um dado da natureza. É no contexto da cultura que nós aprendemos a enxergar as raças. Isso significa que, aprendemos a ver negros e brancos como diferentes na forma como somos educados e socializados a ponto de essas ditas diferenças serem introjetadas em nossa forma de ser e ver o outro, na nossa subjetividade, nas relações sociais mais amplas. (GOMES, 2005, p.49)

O objetivo não é causar polemica com a questão racial, uma vez que raça é uma só – a humana. Entretanto, não podemos reduzir nosso entendimento a este discurso. Portanto, por se tratar de uma questão complexa, o termo raça não é adotado a fim de neutralizar o racismo.
O fato de propor o trabalho sobre as relações étnico-raciais e cultura afro-brasileira e africana através de uma lei, pode ser duvidoso, pois o ideal não seria impor, sob a forma de lei, e sim, por convencimento da necessidade do trabalho com todas as crianças, independente da classe social e etnia em que estão inseridas. E colocar a questão indígena nessa mesma lei pode ser equivoco ainda maior, uma vez que cada grupo tem especificidades que precisam ser trabalhadas com um foco direto.  Trazer as duas questões para sala de aula nestas condições é, no mínimo, desrespeitar a seriedade que ambas devem ser trabalhadas.



Considerações Finais
As leis não modificam pessoas nem realidades sozinhas. Não exterminam preconceitos, nem retomam valores há muito esquecidos. Entretanto, apontam caminhos.
A proteção dos direitos das minorias, assim como a valorização das distintas culturas, bem como o respeito entre os diversos grupos étnico-raciais tem sua base inserida na educação. Uma educação voltada para a tolerância ao diferente, que objetiva a construção de uma cultura de paz, que conserva e valoriza as disparidades de tradições, que universaliza e partilha o caminho rumo ao fim da opressão e exclusão social, ressignificando a cidadania, a democracia e contribuindo para um Brasil melhor.
O reconhecimento das identidades se alia às noções de dignidade. Todas as culturas são conjuntos únicos de valores, com o diálogo sendo o fator essencial para a evolução e existência da humanidade.


Referências Bibliográficas
  • ASSIS, Fernanda Mullin de.  Sobre os Indígenas, o Direito à Identidade e a Lei 11.465/2008.  Maricá/RJ, 2010.
  • Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Etnico-Raciais e para o Ensino de Historia e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Ministério da Educação, Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPRIR. Brasília - DF, Outubro/2004.
  • MORAES, Kelly da Silva. A Lei 10639/2003 e seus Reflexos nos Materiais Didáticos: Uma Análise Sobre o Negro na História do Brasil.
  • Site: Black Power Real.
  • Site: 1978-2008 Viva o Movimento Negro Unificado. 
  • Site: Ação Educativa.
  • Site: Movimento Negro Socialista.
  • Site: Santa Sé.
  • Site: PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais.
  • Site: Kilombo Cultural.
  • SOUZA, Maria Elena Viana. Diálogos Possíveis Entre Concepções De Currículo e a Lei 10.639/03. UNIRIO


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Roma

Um novo período de expansão é marcado pela ascensão de Roma, que representa modificar o posicionamento geográfico do mundo Antigo para a Itália e também o desenvolvimento socioeconômico do modo de produção escravo, tornando possível uma vividez maior e mais duradoura do que na Grécia.
A República Romana era dominada pelo Senado, controlado por um pequeno grupo de patrícios. Os cargos mais elevados eram de Cônsules, eleitos por assembleias populares. Esta estrutura foi posteriormente alterada quando os plebeus forçaram a nobreza a conceder-lhes acesso a um dos cargos consulares em 366 a.C.. Foi criado o Tribunato da Plebe, representando a massa popular dos cidadãos, que tinha por objetivo proteger os pobres da opressão dos ricos. As assembleias adquiriram o direito de legislar e vetar atos dos Cônsules e Senado.
Os patrícios se empenhavam na concentração de terras, se apropriando de territórios comuns, que eles utilizavam como pastagens ou para cultivo. Não houve, em momento algum, transformações que estabilizassem a propriedade rural dos cidadãos comuns. A superioridade política da nobreza não permitia a reforma agrária, que invertesse a polarização social da propriedade de terra. Isso fez com que fosse reduzido o número de hoplitas, homens com poder aquisitivo para se armar, aumentando substancialmente a classe dos proletarii, cidadãos sem propriedades, que se tornaram a maioria absoluta dos cidadãos no final do século III a.C..
A estrutura política da República divergia da Grécia, pois no interior havia vastas propriedades de nobres, enquanto as cidades ficavam povoadas por proletarii. A classe governante deu início à distribuição de cereais, já que “era preferível um proletariado passivo e consumidor a um campesinato recalcitrante produtor”.
Durante sua expansão territorial, Roma demonstrou ser capaz de expandir seu princípio político, a fim de compreender as novas cidades. Exigiu tropas para o exército ao invés de dinheiro para seu tesouro, unindo solidariamente o povo subjugado em tempos de guerra. Além disso, conseguiu integrar estes aliados definitivamente, graças a sua estrutura social, que concedia cidadania romana aos aliados.
A expansão romana era fundamentada no latifúndio escravo, unindo, pela primeira vez, as grandes propriedades no interior, com a escravidão. Configurando, assim, o modo de produção escravo, marcando a fase clássica da civilização romana, o apogeu de seu poder e cultura.
As Guerras Púnicas despejavam prisioneiros na Itália para proveito da classe dominante, ao mesmo tempo em que conflitos internos ocorriam visando ao domínio das terras expropriadas. As batalhas exigiam mobilização constante de cidadãos, isso só era possível graças ao modo de produção escravo, que liberava as reservas humanas para o exército da República. Com as vitórias, mais escravos eram distribuídos nas fazendas, levando assim ao surgimento de propriedades agrícolas trabalhadas exclusivamente por escravos.
O uso de mão de obra escrava se tornou tão grande que no final da fase da Republica não só as lavouras o utilizavam, o comércio e a indústria também estavam tomados destes trabalhadores. Surgiu então a conclusão lógica de que a guerra gerava terras, tributos e escravos, que por sua vez geravam mais tributos e as terras forneciam o aparato necessário para outras guerras.
Ao contrário da expansão territorial grega, que se estendia ao longo da costa litorânea, a romana invadiu o interior, onde não havia civilizações urbanas. Estas áreas puderam ser dominadas graças ao advento do latifúndio com mão de obra escrava. O êxito do arranjo da produção agrícola baseado no modo de produção escravo foi uma das condições das conquistas e colonização de amplas faixas de terra no interior. Este tipo de economia dependia também da implantação de cidades funcionais, que serviam de escoamento da produção, assim como controle político.
A expansão da economia, o desenvolvimento estrutural da capital e as conquistas romanas abriram precedentes para a criação da legislação civil romana. O verdadeiro esforço dessa jurisprudência era administrar processos entre partes nas disputas por propriedades. O acumulo de trabalho desenvolveu um corpo organizado de jurisprudência. Sua grande realização foi a concepção do conceito de propriedade absoluta, o pleno direito legal sobre a terra, diferindo da posse, controle, baseado em fatos, de bens. Era dedicada também à propriedade de escravos.
Os constantes recrutamentos haviam reduzido à classe dos pequenos proprietários. Os soldados, que arriscavam suas vidas e muitas vezes perdiam suas terras, recebiam um pequeno pagamento e eram demitidos bruscamente, sem indenizações. Os legionários buscavam seus generais para reabilitarem-se economicamente, enquanto os generais usavam os soldados para obterem avanços políticos. Houve um desvio da lealdade militar para fora do Estado, tornando os exércitos instrumentos de comandantes ambiciosos, resultando na proliferação de inúmeras guerras civis.
Tornando-se cada vez mais agressivo e insolente à ordem política tradicional nos últimos anos da Republica, o proletariado romano aguça a crise do poder senatorial, isso ligado ao mau governo realizado pela nobreza, seus privilégios exclusivos e o desamparo das províncias fez com que explodisse o último ciclo de guerras civis, oportunizando a intervenção política. Todos, que eram contra o orientalismo de Marco Antônio, uniram-se com Augusto, que acumulou poder supremo, desintegrando o período da República.
As tensões da última República foram aliviadas por uma série de medidas perspicazes, visando a reestabilização da ordem social. Augusto forneceu lotes de terra a milhares de soldados; apaziguou o proletariado com distribuição de cereais; lançou ambicioso programa de construção, que empregou muitos plebeus; melhorou os serviços municipais, com o fornecimento efetivo de água e criando o corpo de bombeiros. As extorsões dos coletores de impostos foram substituídas por um sistema uniforme de tributos sobre a terra. Foi criado também um serviço postal regular, que reunia as várias províncias do Império pela primeira vez. Com estas medidas foi restaurada a paz e a prosperidade nas províncias.
O Império romano baseava-se no sistema de leis civis, sua administração nunca interferiu excessivamente na estrutura legal básica herdada da República. Juristas foram elevados a posições oficiais dentro do Estado, atuando como consultores, concedendo liberdade ao Imperador de legislar, fazendo com que a legislação romana se tornasse mais complexa e completa. As doutrinas principais da lei civil, especialmente as que regiam transações econômicas, permaneceram intactas. As modificações ocorridas foram no âmbito das relações entre cidadãos, o direito criminal, destinado basicamente às classes mais baixas, continuava repressivo. É no período do Império romano que se produziu a sistematização da jurisprudência civil no século III, transmitido o direito romano a todas as épocas posteriores.
Roma concedeu cidadania a quase todos os habitantes livres do Império. As técnicas agrícolas foram ligeiramente aperfeiçoadas com o desenvolvimento de prensas de parafusos, para produção de óleo, e máquinas misturadoras, que facilitavam a produção de pães, assim como a técnica do vidro soprado foi difundida. Exploraram em grande escala, na arquitetura, o arco e a abóbada, descoberto por Roma. O crescimento econômico faz eclodir poesia, literatura, história e filosofia.
Com o encerramento das fronteiras imperiais, a entrada de novos escravos torna-se inacessível, já que o fornecimento de prisioneiros dependia de conquistas estrangeiras. O comércio de presos não supria as necessidades. A crescente demanda e a pouca oferta fez com que os preços aumentassem muito, expondo os riscos de uma economia baseada no trabalho escravo. Uma prática que parece ter sido adotada por alguns proprietários foi a de premiar as escravas que tivessem filhos, o que não solucionava a questão em longo prazo.
Não era prioridade, no modo de produção escravo, a busca por avanços tecnológicos, entretanto algumas inovações agrícolas foram desenvolvidas, como a introdução do moinho rotativo e a prensa de parafusos. Invenções como o moinho de água, cujo potencial é evidente, não foi utilizado em sua totalidade, assim como a colhedeira, que não foi empregada em outros locais do Império além da Gália. Os únicos avanços que permanecem na sociedade romana são os militares e arquitetônicos.
A expansão das cidades no início do Império não foi acompanhada por modificações estruturais no modo de produção, também não houve crescimento da indústria e comércio, fazendo com que o mercado consumidor se tornasse cada vez mais restrito, já que a população era, em sua maioria, formada por camponeses subsistentes, pobres urbanos e escravos. As classes proprietárias desprezavam o comércio, sendo o Estado o maior consumidor, o que poderia ter originado uma indústria dinâmica, porém a política de abastecimento e a estrutura Imperial limitavam isto. Os serviços públicos – estradas, construção, aquedutos, esgotos – eram realizados por escravos. A utilização do trabalho escravo pelo Estado romano foi um dos pilares centrais da economia política do final da Antiguidade. O Estado crescia, nas a economia urbana não percebia os benefícios deste crescimento.
A crise que se iniciava foi o resultado deste sistema econômico e social, que logo se transformou no colapso da ordem política, associado aos ataques externos ao Império. A inflação aumenta e o dinheiro desvaloriza rapidamente. A agitação política e as invasões estrangeiras trouxeram consecutivas epidemias, enfraquecendo e reduzindo as populações. Terras foram abandonadas e a carência na produção aumentava. A construção de cidades foi interrompida. A pressão sofrida, interna e externamente, por cinquenta anos – entre 235 e 284 – parecia levar a sociedade romana ao colapso.
Ao final do século III e início do IV, o Império se modifica e começa a se recuperar. Gradualmente a segurança é reestabelecida por diversos generais aguerridos, juntamente com a reintrodução do recrutamento de soldados, dobrando o numero de legiões, alcançando, aproximadamente, 450 mil homens. Estas medidas proporcionaram a reorganização de toda a estrutura do Estado.
Depois do colapso, as províncias dobraram de número e foram divididas em unidades menores e mais simples de governar. Também foi implantado um novo sistema fiscal.  A mobilidade social aumentou um pouco devido à abertura de novos meios de promoção militar e burocrática dentro do Estado.
A nova configuração política pode ser vista como um novo deslocamento do centro de gravidade do Império para o Mediterrâneo oriental, consumado com a ascensão de Constantinopla. A crise econômica do modo de produção escravo atingiu com mais severidade o Ocidente, onde ele estava mais arraigado, deixando-o em piores condições e culturalmente cada vez mais pobre. Cabe salientar o crescimento da nova religião, nascida no Oriente, que toma conta do Império durante o século III, o Cristianismo.
O centro político deixa de ser a capital, mudando-se para o campo militar, em áreas de fronteira. O poder imperial, a generais. O deslocamento político representou o movimento mais a Oriente possível, a fim de manter unido o Império romano.
A unificação política do Mediterrâneo implicou em novas divisões sociais dentro da classe dominante. A aristocracia senatorial continuava sendo a mais prestigiosa do Ocidente em função da sua concentração de riquezas. Ela foi separada do aparato militar de comando, fonte do poder político imperial e que incluía oficiais estrangeiros pobres.
Constantino inverte a orientação política em relação à nobreza do Ocidente concedendo nomeações para governos de províncias, honras administrativas e até comandos do exército. Aumenta o número de senadores e cria-se uma nova elite patrícia dentro dele. Muda a composição da aristocracia com a aceitação do cristianismo.
Com a instauração do cristianismo como religião oficial deu início a uma burocracia clerical. Dentro da Igreja, também se forma uma hierarquia eclesiástica, cujos salários provinham dos enormes rendimentos oriundos da riqueza da Igreja.
Como Imperador, Constantino também amplia o efetivo militar, com novas unidades de cavalaria e infantaria, somando aproximadamente 650 mil homens ao longo do século IV. Com isso, o Império fica sobrecarregado com o adicional em sua superestrutura militar, política e ideológica.
Em meio a toda essa expansão, a economia sofre um retraimento. A construção urbana e a estabilização financeira, com a emissão do solidus de ouro, tem uma melhoria temporária. Esta nova cunhagem, destinada à elite que depreciava as moedas de cobre utilizadas pelos mais pobres, é o registro da polarização social existente, sendo criados, assim, dois sistemas monetários diferentes.
A partir da crise ocorrida no século III, o relacionamento entre o centro e as periferias se inverte. Pequenos artesãos e artífices saem das cidades em busca de segurança e emprego no campo, nas propriedades da nobreza, fazendo com que comércio e indústria entrem, novamente, em declínio com a ruralização gradual do Império.
A crise final da Antiguidade teve origem no campo. Ao mesmo tempo em que as cidades estagnavam, a economia rural sofria modificações, de modo que anunciavam a transição do modo de produção. No século III, o trabalho escravo torna-se cada vez mais incomum e preocupante, até o momento em que o valor de escravos começa a cair. Os proprietários passam a se preocupar com os trabalhadores, estabelecendo-os em pequenos lotes de terra e deixando que recolham o excedente. As propriedades passam a se dividir em núcleos cultivados por escravos e camponeses.
Estes camponeses, dependentes e amarrados à terra de seus senhores, passam a ser chamados de colonus, que geralmente recebiam metade do que produzia o lote. Assim, os escravos agrícolas deixaram, lentamente, de ser comercializados. O surgimento do colonato absorvia os pequenos camponeses e diminuía os problemas de gerenciamento, aumentando a riqueza dos proprietários.
Assim, o Império foi partido pelas diversas dificuldades econômicas e pela polarização social, entretanto somente no Ocidente que estes processos resultaram no colapso do sistema imperial. O Ocidente foi o palco da escravidão como modo de produção, onde foram fundadas as cidades romanas, onde residia a classe dominante e foi lá que o latim se tornou a língua oficial. A conquista do Oriente somente encobriu e coordenou a civilização helênica, que já havia estabelecido a lógica do lugar. Sendo assim, fica evidente que os efeitos do modo de produção escravo se mostrassem mais intensos no Ocidente.
Em 375, com a morte do Imperador Valentiniano, o senado retoma, gradualmente, a própria função imperial e militar, minando aos poucos as defesas, que tanto inquietaram os Imperadores. A classe proprietária se esquiva dos impostos e há a contenção do recrutamento. O antimilitarismo abre espaço para generais incapazes de transformar sua autoridade militar em poder político. Uma sucessão de imperadores fracos, manipulados por grupos aristocráticos, foram contra estes generais, fazendo com que não houvesse mais segurança dentro do Império do Ocidente.
Na virada do século V, diversas insurreições das massas explodem com intensidade e em grande escala, associadas às pressões fiscais e de rendas. Os camponeses rebeldes criam um Estado independente, expulsam oficiais e proprietários, escravizam donos de escravos e criam seu próprio exército e jurisprudência. A polarização social do Ocidente termina com a ruína do Império, devido a forças internas e externas que lhe aplicam o golpe de misericórdia.

Bibliografia: ANDERSON, Perry. Passagens da Antiguidade ao Feudalismo.  (não tenho aqui a edição, editora e ano de publicação)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Principais Hominídeos

As idéias sobre a origem do mundo e dos homens vêm mudando com o passar do tempo, graças a uma série de descobertas nos últimos dois séculos. Primeiramente, acreditava-se que Deus havia criado a terra e os seres que nela habitavam. Essa hipótese foi lentamente derrubada com a descoberta de um fóssil humano, ainda que diferente de nós, por volta de 1856. Era o primeiro homem de Neandertal, que surgiu para promover as suposições de Darwin sobre a teoria da evolução.
Através do conhecimento adquirido, sabemos hoje que os Australopitecos são o elo entre homens e símios. Apareceram por volta de quatro milhões de anos atrás na África, com características bem marcantes.
Possuíam o crânio pequeno em relação à face, seu cérebro tinha o volume aproximado de 400 cm³ e mediam cerca de 110 cm de altura. Com faces salientes, mandíbulas fortes e o formato das inserções de músculos e tendões sugerem uma musculatura possante. Os dentes também apresentam características humanas, com caninos de tamanho menor que os dos símios. É importante destacar que os Australopitecos podiam ficar em pé, embora sua postura fosse bem diferente em relação a nossa.
Provavelmente desapareceram há um milhão de anos, seu exemplar mais famoso é Lucy, com 3,2 milhões de anos, encontrada em 1974 por Donald Johanson.
Datado de aproximadamente dois milhões de anos, o Homo hábilis é considerado o primeiro de nossa espécie. Recebe este nome para destacar sua capacidade em usar ferramentas (hábilis = habilidoso), ainda que muito rudimentares. Muitos destes instrumentos são apenas lascas de pedras, as pequenas usadas para raspar e as mais grossas como machado.
Tem como características físicas o aumento da capacidade craniana, o volume de seu cérebro chega em 630 cm³. Capaz de andar em pé, continua com braços longos, que possibilitam maior desenvoltura para subir em árvores.
Depósitos de ossos encontrados juntos às ferramentas nos informam que estes homens eram caçadores e carnívoros. Também revelam um comportamento interessante, o costume de dividir a presa e consumi-la com o grupo, apresentando o primeiro passo para a cooperação.
A transformação seguinte é marcada pela expansão do cérebro de 630 para 1.000 cm³, este homem, batizado de Homo erectus, possui a calota craniana mais elevada, acima das arcadas supraciliares, que continuam pronunciadas. A face já não é mais tão longa, mandíbula baixa e voltada para trás, com a arcada dentária ainda saliente.
Neste período, os utensílios se tornam mais numerosos e aperfeiçoados, como o machado de duas faces, não muito modificado posteriormente. Seu aparecimento é datado de dois a 0,5 milhões de anos.
O Homo sapiens representa a última etapa do processo de aumento cerebral, chegando ao volume de 1.400 cm³, há quinhentos mil anos atrás. Na história da evolução é provável que este crescimento seja o causador do aumento das capacidades intelectuais, como a fabricação de utensílios e o uso da linguagem de forma mais complexa.
Classificados como Homo sapiens arcaico, tem arcadas supraciliares marcantes, ossos espessos e face saliente, ainda lembrando os símios. Foi encontrado na África, Europa e Ásia.
A partir de duzentos mil anos, foi encontrado na Europa um sapiens diferente, chamado de Homo sapiens neanderthalensis, desaparecendo cerca de trinta e cinco mil anos. Sua capacidade craniana é semelhante à do homem moderno, porém com calota craniana mais comprida e baixa em relação à face, testa estreita e arcadas supraciliares proeminentes. Seu rosto é comprido, nariz largo e queixo pouco pronunciado. Há também uma protuberância na extremidade posterior do crânio. Os encaixes da musculatura indicam que era muito forte.
Viviam, provavelmente, em cavernas e adaptaram-se a diferentes climas. Eram caçadores e nômades. Utilizavam ferramentas em estilo musteriano como facas, raspadores, furadores, lanças, entre outras. Trabalhavam pedra e madeira.
Em torno de cem mil anos, surge na África o homem dito como moderno, isto é, Homo sapiens sapiens, que passou a difundir-se pelo mundo, mostrando grande adaptação a diferentes ambientes.
Ele ainda utiliza objetos tipo musterianos que vão sendo substituídos pelos aurignacenses, com uma gama de utensílios ainda maior, com formas mais precisas e funções reconhecíveis. Passam também a trabalhar o marfim, chifres e ossos.
A diversificação lingüística foi simultânea à grande diversificação de objetos e à difusão do homem moderno. Talvez o aparecimento de novas estruturas cerebrais tenha sido a base para a transformação cultural ocorrida na época.
Surge um interesse pela arte, onde podemos destacar pinturas rupestres, com imagens de animais, rochas esculpidas, estatuetas de pedra e objetos pessoais, como colares e outros ornamentos feitos com dentes de animais, conchas, marfim, pedras e ossos cuidadosamente trabalhados.
A lança foi aperfeiçoada e surgem instrumentos de pesca, como o arpão e o anzol. O arco foi uma inovação importante, aparece aproximadamente vinte mil anos atrás e difunde-se rapidamente.
Ele continua a viver em cavernas, embora também tenha construído cabanas e tendas. Produziu vestimentas em peles e até inventou a agulha para costurá-las.
Infelizmente muitas evidências fósseis já foram perdidas, ora por saques, ora para serem usadas para outros fins. Muitas vezes os achados se dão por acaso, já que não temos um sistema que nos indique onde procurar diretamente. Essas descobertas são normalmente divulgadas, atraindo muita atenção e posteriormente publicadas.
Este assunto gera uma série de discussões a respeito da origem do homem, teorias evolutivas, melhores métodos para datar achados, e, principalmente, se estas espécies de hominídeos conviveram juntas em determinados períodos, se houve uma evolução natural entre as espécies ou eram gêneros diferentes que se extinguiram em determinado período.
O assunto é fascinante e somente estudando mais a fundo é que percebemos que ainda temos muito a descobrir sobre nossos antepassados e sobre a preservação da nossa memória.



BIBLIOGRAFIA:
CAVALLI-SFORZA, Luca e CAVALLI-SFORZA, Francisco. Quem Somos? História da Diversidade Humana. São Paulo: UNESP, 2002, p.55 a 113.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Grécia

Democracia, teorema de Pitágoras, colunas e frontões... Ligada de muitas maneiras às civilizações clássicas, nossa sociedade demonstra grande interesse por diversos aspectos culturais da Grécia.
Tendo como centro desta civilização a Península Balcânica, os deslocamentos populacionais devido a condições físicas desfavoráveis, solo empobrecido e clima com temperaturas extremas, favoreceram a expansão grega por outras terras.  Composta por regiões continentais como o Peloponeso e Ática, ilhas como a de Creta, formaram colônias no lado oriental do Mar Egeu, atual Turquia, Sicília e Itália, e também no Mediterrâneo ocidental, como Marselha, França. A Grécia não era um país conforme as definições atuais, para eles, seu país estava onde existissem gregos.
Formada por diferentes povos, vindos de diferentes lugares, a Grécia absorveu o que havia de melhor em cada um deles. Jônios, Aqueus e Dórios, entre outros, trouxeram suas experiências no comércio marítimo, metalurgia do ferro, cerâmica, construções de palácios, escrita... A Grécia clássica como conhecemos hoje é herdeira de avanços e conhecimentos aprendidos e adaptados de outras civilizações. Possuía uma unidade cultural básica, porém com variações de acordo com as regiões e influências estrangeiras.
O que ocorreu foi uma grande mistura de povos e seus elementos culturais, formando, lentamente, uma nova civilização que se estende para onde e como puder, mostrando a capacidade de adaptação e dinamismo dos gregos.
O mundo grego era constituído por inúmeras cidades – polis – definida por seu povo – demos – submetido aos mesmos costumes e religiosidade. As cidades compreendiam várias tribos, divididas em frátrias e estas em clãs, por sua vez compostos de muitas famílias. Os que não pertenciam a estes grupos eram considerados estrangeiros, não tinham direito nem proteção. Sua economia baseava-se inicialmente na agricultura e pecuária. Com a expansão grega prosperou o comércio marítimo, introduzindo o uso da moeda como facilitador nas trocas, e o artesanato, na produção de armas e cerâmica.
 As terras pertenciam a ‘nobres’, que administravam também o poder político e judiciário, em lugares onde prevalecia o regime aristocrático, como é o caso de Esparta. Além desses nobres, a sociedade era composta por servos, artesãos e pequenos proprietários.
Principalmente em cidades marítimas e voltadas ao comércio, ocorreram guerras civis, em que o povo reivindicava por maior participação nas decisões políticas. Foi atribuída a alguns homens de boa reputação, chamados de tiranos, a tarefa de redigir leis, ampliando os direitos políticos dos cidadãos. Estas transformações tenderam à democracia e temos como exemplo a cidade de Atenas.

ESPARTA

Sem grandes destaques no comércio, devido a sua localização de difícil acesso, Esparta possuía terras férteis, ideais para o plantio de cereais, oliveiras, vinhas e pastagens.
Localizada no sudeste da península do Peloponeso, foi fundada por Dórios que também conquistaram outras localidades. Os Espartanos eram proprietários de terras cultivadas por famílias de hilotas – servos vindos de cidades por eles dominadas – que não eram escravos, formavam uma comunidade à parte, e por diversas vezes se revoltaram.
O poder em Esparta era concentrado nos dois reis da cidade assim como num pequeno número de dirigentes que compunham a Gerúsia (espécie de senado), formado por 28 anciãos, cujos poderes não eram muito grandes.
Todos os homens eram proibidos por lei de trabalharem para se dedicarem exclusivamente à carreira militar. Desde meninos tinham uma educação militar rígida, aos sete anos saíam de casa, a fim de receberem um treinamento voltado às guerras. Este sistema teve por conseqüência uma forte disciplina, um exército poderoso e a falta de criatividade em desenvolver indústria e artes.

ATENAS

Outra grande cidade grega, muito mais dinâmica que Esparta, e bem mais conhecida por historiadores e arqueólogos, é Atenas. Tinha o solo pouco fértil, produzindo trigo e cevada que nem sempre era suficiente para sua população. Em suas colinas, plantavam oliveiras e uvas, resultando numa indústria de azeite e vinho. Também desenvolveram a mineração de prata e o comércio marítimo teve destaque devido ao porto de Pireu.
Por muito tempo, Atenas viveu sob domínio aristocrático, no qual as terras pertenciam a poucos, os ‘eupátridas’. Os pobres, pequenos camponeses e artesãos, sempre em dificuldades, acabavam por serem escravizados em função de suas dívidas. O poder econômico de Atenas cresceu, fazendo com que parte da população, em geral comerciantes, se beneficiasse desta melhoria em sua condição de vida, gerando, lentamente, o fim do regime aristocrático. Para isso foi preciso muitas lutas populares, em que terras foram confiscadas dos nobres, aumentando o número de pequenos proprietários, mudando o sistema de voto e representação política, a partir do qual todos os cidadãos alistados em um ‘demos’ poderiam votar em assembléia, entre outros.
Este regime político tornou-se plenamente desenvolvido com Péricles (aproximadamente em 469 a.C.). É neste período que cargos políticos tornaram-se acessíveis à população e palavras como justiça e liberdade permearam o imaginário ateniense.
A democracia surge em Atenas, onde todos os cidadãos podem participar das assembléias do povo, as ‘Eclésias’, que ocorriam em praças públicas cerca de dez vezes ao ano, sendo suas decisões inapeláveis, porém antes passavam por um conselho, o ‘Bulé’, quando eram então comentadas e emendadas sempre que necessário. Faziam parte da Bulé quinhentos senadores, sorteados entre os que se candidatassem, porém deveriam ser cidadãos, com no mínimo trinta anos de idade.
Por cidadão lê-se homem, maior de dezoito anos, filho de pai e mãe ateniense. Escravos, estrangeiros, assim como mulheres e crianças atenienses não tinham direitos políticos. Camponeses e pequenos artesãos podiam usufruir da democracia ateniense, a participação política abrangia um número significativo de homens, desde os mais modestos até os que possuíam grandes fortunas.
Os ‘metecos’, estrangeiros, pagavam taxas especiais e prestavam serviço militar além de pagarem impostos. Eram responsáveis por boa parte do desenvolvimento e prosperidade de Atenas, atuando em diversas profissões, exercendo grande parte das atividades econômicas, artesanais e comerciais. Muitos se destacavam como artistas e intelectuais. Os escravos, em sua maioria, eram prisioneiros de guerra, sendo eles gregos ou não.
A experiência de democracia ateniense serviu de inspiração para todos que defenderam a liberdade política e o governo do povo, mesmo muitos séculos depois.

Havia muitas diferenças entre homens e mulheres da Grécia antiga. Quando meninas, tinham pouco contato com meninos e seus brinquedos remetiam à idéia da vida adulta, cuidados com a casa, filhos, etc, enquanto os meninos brincavam de lutas, antecipando sua vida no exército. Na adolescência elas participavam de cerimônias que preparavam para o casamento; eles iniciavam no serviço militar, caçavam e recebiam educação suficiente para administrar assuntos públicos. Os homens eram  preparados para participarem de competições atléticas, musicais e para falar em público. Todos, independente da classe social, tinham direito à educação.
As meninas casavam aos 12 anos de idade aproximadamente e tornavam-se donas de casa. Para os homens, o casamento se dava com 35 anos de idade, geralmente. O marido transmitia alguns conhecimentos à esposa, a começar pela administração da casa. Em geral, as mulheres viviam confinadas em cômodos destinados somente a elas, os chamados ‘gineceus’, enquanto os homens participavam da vida pública.

A cidade era composta por partes: na Acrópole, localizada em uma colina, mais próxima do céu, ficavam os locais sagrados e cívicos, uma parte alta, representando a cidade como um todo, com os edifícios mais importantes e na porção mais baixa, localizavam-se o mercado e a Ágora (praça). Cercando a Acrópole e a Ágora, uma grande muralha protegia a zona urbana; ao redor, o campo, com suas propriedades rurais. Todo este conjunto era chamado de Polis.
Na Grécia havia uma distinção entre a vida pública e privada, porém não como conhecemos hoje. A vida pública era essencial, inclusive para a definição de identidade das pessoas, ela implicava na participação dos assuntos da cidade, era compreendida pela participação em assembléias e no exército. Os homens acabavam dedicando-se pouco à vida familiar em detrimento à vida pública. Mulheres, crianças, estrangeiros e escravos não eram considerados cidadãos, portanto não participavam.
Cada cidade tinha sua própria constituição. Em geral algumas características eram comuns a todas, como o direito divino, o que havia sido estabelecido pela tradição, o que os homens não podiam mudar e as leis feitas sobre a vida em sociedade.
Havia diferenças de status e estilos de vida também. Os bem nascidos, eupátridas, viviam com sofisticação, promovendo banquetes regados a vinho e discussões político-filosóficas, dedicavam-se ao ócio, compreendido na época como liberdade para participar da vida pública, refletir sobre o mundo e participar de conversas estimulantes. Os outros cidadãos, camponeses, viviam com muita simplicidade, em famílias onde todos trabalhavam para garantir sua sobrevivência.

Havia na Grécia diversos tipos de relações sexuais e amorosas bem aceitas por todos; eles não sentiam culpa nem encaravam o sexo como algo cientificamente analisável, pois sexo era ligado à natureza, ao divino. Tanto que existiam diversos deuses ligados à sexualidade e ao amor.
Os ideais de beleza eram muito diferentes dos nossos, os homens procuravam mulheres sem defeitos físicos e com certa robustez, o que possivelmente permitiria bons partos, pele clara significava que ela não trabalhava ao sol, e a timidez era valorizada. Nos maridos era valorizada a força, coragem e inserção social. Isto entre a elite, pois para os cidadãos mais simples, o casamento era uma forma de unir famílias, propriedades, assim como uma maneira de sobreviver trabalhando em conjunto.
Entre os gregos existia o chamado ‘amor nobre’, baseado em afinidade de idéias, na relação de aprendizado, entre professor e aluno, ocorriam relações sexuais entre adultos e meninos, sem que houvesse culpa, pois esta prática era comum entre a elite grega. Estes homens não deixavam de se relacionar com mulheres. Antes do casamento mantinham relações com as ‘hetairas’, assim como outros homens que participavam dos banquetes.
Os casados se preocupavam com a reprodução da família, mas também mantinham relações sexuais com os escravos, sendo eles homens ou mulheres.
Apesar de nem todos terem o mesmo comportamento sexual, não havia reprovação moral a relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, uma vez que o desejo era visto como algo divino. Eram criticados os casos de descontrole, como se deixar levar pelos desejos sexuais de uma paixão incontrolável ou o desequilíbrio que levava o homem a adquirir modos efeminados.

A religiosidade grega unificava cidades com costumes tão diversos. Seus deuses eram muito próximos aos homens e à Terra. Eles interferiam diretamente na vida de mortais, comandando a natureza e participando da vida dos humanos. Os deuses comportavam-se como homens; o que os diferenciava era sua imortalidade.
Cultos ocorriam em dois níveis: o doméstico, variando bastante e correspondendo a sentimentos íntimos, é mais liberal, já o público tinha caráter oficial, representando o espírito patriótico, evoluindo de forma mais lenta.
Narrativas fantásticas, com muitas aventuras eram passadas de geração a geração, oralmente, acerca de deuses e suas façanhas. Estes relatos, também conhecidos como mitos, foram registrados posteriormente, redefinidos e aprimorados; evoluíram e se adaptaram a todo o período da civilização grega e nos servem como fonte de conhecimento sobre o pensamento e cultura deste povo.

No período arcaico (Séc. VII e VI a.C.) houve grande intercâmbio de ideias entre os gregos, egípcios e mesopotâmicos. Na Jônia e Magna Grécia, pensadores se ocuparam com temas como a origem do mundo, a verdadeira realidade, a unidade por detrás das aparências. O objetivo era explicar o mundo através da razão, deixando de lado os mitos e deuses, identificando princípios e estabelecendo ordem para fenômenos naturais e sociais a partir de reflexão sobre experiências cotidianas.
Homens ativos, práticos e interessados aproveitaram para analisar, criticar e criar, surgindo assim o pensamento racional e a Filosofia, para ampliar o conhecimento sobre a realidade. Buscando estabelecer leis que explicassem o funcionamento do universo, surgiu a ciência grega, marcando uma mudança importante, centrando a capacidade de pensamento aos homens, sem depender diretamente dos deuses. Surgiram nomes como Tales, de Mileto e Pitágoras, de Samos, que desenvolveram a Geometria e Hecateau, de Mileto, que dedicou-se à  Geografia.
Idéias que colocaram o homem no centro das atenções foram revolucionárias e com um grande potencial libertador, dando a capacidade de entender que foram estes homens que criaram os deuses a sua imagem e semelhança e não o contrário.
A nova vida cultural e material das cidades possibilitou o desenvolvimento de uma nova forma de pensar o mundo. Foi em Atenas que Sócrates, Platão e Aristóteles buscavam suas verdades, faziam questionamentos, viajavam para o mundo dos pensamentos. Estes filósofos trouxeram os fundamentos para todas as formas de pensamentos posteriores, até os tempos Modernos, suas idéias transcenderam, tornando-se instrumentos do conhecimento.

Não só na Filosofia que o homem passou a ser o centro, o referencial. As artes também o tinham como parâmetro e buscavam nele toda a proporcionalidade das partes em relação ao todo. A beleza consistia na analogia com as proporções humanas.
A arquitetura utilizava-se de pedras e mármores. Foi desenvolvida uma linha arquitetônica muito peculiar, com colunas e frontões extremamente característicos de cada uma das principais ordens gregas: a dórica, com colunas sem base e com capitel curvo, linhas muito limpas; a jônica já apresenta base e tem no capitel duas volutas; a coríntia já era mais rebuscada em seu capitel, com volutas e relevos com desenhos de folhas principalmente, e com frontão muito detalhado, com ilustrações de mitos nele representado.
Tinha como principais edifícios os templos, tendo como exemplo mais popular o Parthenon, além dos teatros e ginásios. A arquitetura e o teatro serviram de modelo para os romanos e posteriormente para toda a cultura ocidental.
Inicialmente, a escultura procurou representar os grandes momentos dos homens, posteriormente seus movimentos e os indivíduos, representando pessoas concretas, com sua fisionomia e traços particulares.

A Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta (431 a 404 a.C) iniciou o declínio das cidades gregas independentes com a derrota de Atenas. Esta luta foi resultado da disputa por controle político das cidades e, mesmo após o fim da guerra, muitas batalhas continuaram ocorrendo, enfraquecendo as cidades e trazendo a ruína para camponeses e artesãos.
Estas disputas se mantiveram até que Felipe, da Macedônia começou a conquistar algumas destas cidades e seu filho, Alexandre, o Grande, dominou toda a Grécia, os persas, chegando até a Índia. Criou assim um império imenso, onde conviviam diversos povos, com dezenas de línguas, governados por uma elite macedônica. Neste período foram fundadas várias cidades com seu nome, como Alexandria, no Egito. Esta civilização, conhecida como helenística, destaca-se por sua vida intelectual intensa, pela convivência de muitos povos e pelas trocas culturais.
Com a morte de Alexandre, o império desintegrou-se, dividindo-se em três reinos centrados na Macedônia, Egito e Mesopotâmia. Entretanto as cidades gregas continuaram a existir até serem incorporadas ao domínio romano, porém mantinham uma impressionante fidelidade à sua cultura.

Podemos notar que nossa sociedade é inspirada, em diversos aspectos, na sociedade grega. A democracia, arquitetura, ciências, filosofia, artes, mitologia, jogos olímpicos, estão presentes em nosso cotidiano e remetem a uma cultura atemporal, uma herança viva, presente e importante, que sobrevive aos avanços e às mudanças constantes que a modernidade nos impõe.